Ainda menina, no distrito de Ibiapaba, no sertão de Crateús, Erivany Soares tinha um sonho compartilhado por muitas crianças da cidade: conhecer o mar. A cerca de 350 quilômetros de Fortaleza, foi pela ferrovia que esse desejo se tornou realidade. Embarcou em um trem na estação próxima de sua casa e seguiu até a capital, onde desembarcou na Estação Professor João Felipe, então conhecida como Estação Central, para finalmente conhecer o litoral.
“Era motivo da gente fazer inveja”, recorda Erivany, hoje com 83 anos. “A gente falava para os amigos que tinha ido ver o mar e eles, não”, brinca. Aquela seria apenas a primeira de muitas experiências que marcariam sua relação com a ferrovia.
Anos depois, em 1964, Maria Erivany Soares da Silva — aos amigos, basta “dona” Erivany — ingressou na Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA) como professora do ensino primário. Durante 11 anos, ensinou filhos de trabalhadores da estrada de ferro no Centro Educacional Ferroviário Paulo Sarasate, localizado nas proximidades das antigas oficinas Demosthenes Rockert, conhecidas como oficinas do Urubu.
Com o fechamento das escolas ferroviárias, acompanhando o processo de desativação e posterior privatização da malha ferroviária nacional, Erivany precisou mudar de função. A oportunidade surgiu por meio de um concurso interno da RFFSA. “Eu participei de um concurso interno dentro da própria empresa. Havia uma vaga, devido à aposentadoria de uma servidora, e, entre os 72 candidatos, fiquei em primeiro lugar”, lembra, com orgulho. Com a aprovação, passou a atuar como assistente social, dando continuidade à sua trajetória na empresa.
Seja como professora ou assistente social, o contato com as pessoas sempre esteve no centro de sua atuação profissional. “Eu sempre trabalhei com pessoas e gosto muito de gente”, conta, com um sorriso no rosto. “Eu gosto quando estou no meio das pessoas. Para mim, é o melhor momento da vida”.
Ao recordar os anos dedicados à ferrovia, Erivany fala com carinho sobre sua trajetória. “Foi uma trajetória muito feliz, que me fez crescer como profissional e como pessoa”, afirma. Mais do que um espaço de trabalho, a RFFSA também representou estabilidade e sustento. “Foi muito importante para a minha sobrevivência e também da família que construí”, ressalta.

O trem, as pessoas e suas histórias
Além das viagens que fazia pela empresa, Erivany encontrava prazer nos momentos em que simplesmente se sentava na estação para observar a chegada e a partida dos trens, acompanhando o movimento de pessoas que circulavam pelo local. “Isso era bom, tinha troca de conversas e muitos casamentos e namoros aconteceram por causa do trem”, destaca. Para ela, há também um encanto particular nesse universo:
“Porque o trem é romântico, até o apito dele é romântico”.
Atualmente, dona Erivany é presidente da Associação dos Ferroviários Aposentados do Ceará (Afac) e faz parte do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa de Fortaleza. Sua atuação segue dedicada às pessoas e à valorização de suas histórias, especialmente à preservação da memória das pessoas idosas. “A memória nos faz melhorar a autoestima, não é?”, reflete.
Nesse trabalho, ela reconhece a importância do Museu Ferroviário Estação João Felipe como espaço de encontro, preservação e compartilhamento de experiências. “A criação do Museu fez uma coisa maravilhosa, porque chamou outros ferroviários que têm histórias lindas para contar”.
Erivany também costuma convidar amigos e antigos colegas para visitar o Museu e revisitar suas próprias trajetórias. “A gente convida para virem visitar e as pessoas saem daqui maravilhadas, porque vão rememorando a sua infância, sua juventude e lembrando de muita coisa boa que a ferrovia trouxe”, conta.
Décadas depois daquela primeira viagem de trem, que levou uma menina de Crateús a conhecer o mar, Erivany continua encontrando na ferrovia uma forma de aproximar pessoas e histórias. Hoje, ajuda outros ferroviários a revisitar suas memórias e compartilhar experiências que permanecem vivas.
Lucas Matheus
Estagiário sob supervisão de Caio Faheina





